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POR
EUGÉNIO DE CASTRO
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in 2010 with funding from
University of Toronto
http://www.archive.org/details/sombradoquadrantOOcast
A SOMBRA
DO QUADRANTE
OBRAS DE EUGÉNIO DE CASTRO
Crystallisações da Morte, 1 884.
Canções d Abril, 1884.
Jesus de Na^areth, i8^S5.
Per timbram, 1887.
Horas tristes, 1888.
Oaristos, i.* edição, 1890; 2.' edição, 1900.
Horas, 1891.
Sylva, 1894.
Inter lunio , 1894.
Belkiss, 189}.
Tiresias, 1893.
Sagramor, 1895.
Salomé e outros poemas, 1S96.
i4 Nereide de Harlem, 1896.
O /?et Galaor, 1897.
Saudades do Céo, 1899.
Constança, 1900.
Depois da Ceifa, 1901.
Poesias Escolhidas, 1902.
O melhor retrato de João dé Deus, 1906.
O i4nMe/ £Íe Polycrates, poema dramático.
Belkiss, 2." edição.
A SOMBRA
DO QUADRANTE
POR
EUGÉNIO DE CASTRO
DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
COIMBRA
F. FRANÇA AMADO, EDITOR
190G
PC)
^ -^PR A '^"y^
NOV 2 i 19Ò7
^'csta edição /e:;-sc uma tiragem especial
de quatro exemplares em papel Whatman,
mmierados e rubricados pelo aucíor.
I
D. MIGUEL DE UNAMUNO
. . . tibi: namque tu solcbas
Meãs esse aliquid putare nugas.
Catullo.
I
EPIGRAPHE
JMwmurio d' agua na clepsydra gotejante.
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio d'areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra a\ulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre.
Homem, que/a^es tu ? Para que tanta lida.
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça ?
Procuremos somente a Belle\a, que a vida
E' um punhado infantil de areia resequida.
Um som dagua ou de bronze e uma sombra que passa.
INSCRIPCÃO
A LUIZ DE MAGALHÃES.
Arqueado sobre a límpida corrente,
Ria um fauno da própria carantonha,
Soprando folgazão em verde cálamo.
Quando, na opposta margem, de repente,
Viu a figura esbelta mas tristonha
D'Enio, que abria uma inscripção n'um álamo.
Poz-se o fauno a espreitar, quedo e matreiro,
E assim que o pastor grave se afastou
i6 A SOMBRA DO QUADRANTE
Como um espectro na bruma vespertina,
Galgou d'um salto o murmuro ribeiro,
E alçando-se nas patas soletrou
No prateado tronco esta sextina :
« Sequioso, hoje, ao curvar-me d*iins barrancos y
« Para beber em crystallina fonte ,
« Que entre agriões canta e fulgura, a rir,
<€ Vi que já tenho dois cabellos brancos !
« Assim, longe de ti, na minha fronte
« As saudades começam a florir, . . »
PASSEIO NOCTURNO
Levanta-te, Psyché ! Nem um só astro explende
Na abobada tranquilla. . .
São horas de partir. Toma o teu manto, e accende
A lâmpada d'argila.
Vamos correr de novo os saudosos caminhos,
Cemitérios d'esp'ranças,
Onde passámos rindo a colher flor's e ninhos,
Como duas creancas. . .
l8 A SOMBRA DO QUADRANTE
Quero voltar á fonte onde em calmoso dia
Martha nos appar'ceu ;
A roseira que lá com mil bocas sorria,
Já de certo morreu. . .
Quero ao cedro voltar, que imperava sombrio
N'um monte áspero e bronco,
A ver se o tempo as duas letras já sumiu
Que eu lhe gravei no tronco. . .
Sentar-me-ei comtigo, um instante, no musgoso
Cume da pedra brava
D' onde vimos mingoar ao longe o vulto airoso
D'Ignez que nos deixava. . .
Do jardim de Leonor quero rever as dhalias,
E as pervincas na balsa. . .
Mas que fazes, Psyché? P'ra que atas as sandálias?
Vem mesmo assim, descalça !
A SOMBRA DO QUADRANTE 19
Temes o abrolho, que escondido dilacera ?
Dos cardos a rudez ?
'Stá coberto de cinza o chão que nos espera :
Não maguarás teus pés. . .
tristíssima
i> o teu perfil d'anjo mortificado
Puira sempre uma nuvem de tristeza,
Que bem fundo me abala, p'la incerteza
Pungente e viva, de eu a ter causado.
Talvez teu coração desconsolado,
Vendo o meu tão pobrinho de belleza,
Sinta a dolorosissima surpreza
De quem desce d'um sonho albirosado.
2« A SOMBRA DO QUADRANTE
Magoam-te, meu bem, velhos abrolhos ?
Tens saudades d'alguem que está ausente ?
Ah ! permitta o Senhor, ó pura e doce,
Que essa tristeza venha de os teus olhos
Terem debalde olhado, longamente,
A estrada pela qual o Amor me trouxe !
SAUDADES
v^ada uma das palavras que vaes ler
Com olhos de divina claridade,
Leva-te, meu encanto, uma saudade
Mais triste do que as rolas a gemer.
Poucas, bem poucas são as que, a tremer,
Aqui te escrevo, ó toda suavidade,
Mas fossem mil, não foram nem metade
Das saudades que enturvam meu viver.
24 A SOMBRA DO QUADRANTE
Se, arrancados, meus olhos lacrimosos
Podesscm ver os teus, ião mysteriosos,
Que ao vel-os tudo em sonhos se converte,
De só por ti chorarem nunca fartos,
Arrancára-os eu já, para mandar-t'os,
Feliz de me achar cego para ver-te !
HORA SUPREMA
L/aría de bom grado
Trinta ou quarenta dias do futuro,
Se o podesse fazer,
Para, moço outra vez, do meu passado,
Ingénuo, crente e puro,
Três horas, ires somente, reviver.
26 A SOMBRA DO QUADRANTE
Na primeira das três,
Aquella revivera, azul, celeste,
Em que, rósea de pejo.
Com infantil, quebrada timidez,
Suavíssima me deste.
Sob as magnólias, o primeiro beijo.
Ao chegar da segunda,
Que ponto no passado evanescente
Tomara eu por mira ?
Sentindo uma emoção doce e profunda,
Extasiadamente,
Da primeira as doçuras repetira.
Cavamente sonora.
Soaria a terceira : tudo em pó
Se desfaz, de fugida . . .
E eu sempre a reviver a mesma hora,
Que, sendo uma hora só.
Tem sido, é e será toda uma vida !
ROMPIMENTO
IVlandas-me as prendas que te dei outrora ;
Ahi vão aquellas que me deste um dia. . .
Seja ! acabe-se tudo. . . e que a alegria
Doire essa gracil cabecinha loura.
Ahi vae o lenço onde, orvalhada aurora,
Choraste, uma manhã, quando eu partia,
E a mecha de cabellos, luzidia,
Dada em risonha, inolvidável hora.
28 A SOMBRA DO QUADRANTE
Ahi vão as rosas, onde a tua boca
Poisaste, affavel, antes que m'as desses,
Certo dia em que eterno amor jurámos. .
Nada mais tenho teu ; é finda a troca,
Se o desejo não tens (ah! se o tivesses. . . )
De destrocar os beijos que trocámos. . .
o ERMITÃO
A MEU IRMÃO
LUIZ DE CASTRO E ALMEIDA.
« Joseph de Sá Pereira, Ermitão
que actualmente f sic ) era da Ca-
pela da Virgem Nossa Senhora de
Entre Agoas. »
Certidão d'obito.
Csse Joseph de Sá, meu quinto avô,
Fidalgo altivo e caçador de fama,
Cumprindo o que Jurara á sua Dama,
Fez-se humilde ermitão quando enviuvou.
Na ermida, entre aguas, relembrava só
A que dormia em funerária cama ;
Na memoria, porém, inquieta e em chamma,
O rosto d'ella aos poucos se apagou. . .
3o A SOMBRA DO QUADRANTE
Mas a Virgem, sorrindo com deleite
Ao que tão bem, tão plácido, a servia,
As tardes, quando o ermitão cançado
Ia espertar a lâmpada d'azeite,
Co'as feições da defunta lhe appar'cia,
Como ella as tinha ao tempo do noivado,
A' VOLTA DA FONTE
A JOÃO DE VILHENA.
V cita da fonte a donzellinha airosa,
Ao musical esmorecer do dia,
Mas volta grave, lenta e lastimosa.
Com a urna vasia.
Seccou a fonte ! Nem um leve fio
Cae da limosa bica. . . D'hoje em deante,
Para ter agua, terá de ir ao rio
Que fica bem distante. . .
32 A SOMBRA DO QUADRANTE
Não é isso porém o que de espinhos
Veste seu peito e a afoga em tristes anciãs
Os seus pés são ligeiros passarinhos^
Sorriem das distancias...
O que a fere e lhe augmenta a pallidez
E' que o seu moço e esbelto namorado
Faltou -- ai d'ella ! — p'la primeira vez,
Ao encontro ajustado.
Vasia, agora a urna mais lhe pesa
Do que nas tardes em que vinha cheia ;
Flores, nem uma traz. . . E' a Tristeza
A arrastar-se p'la areia. . .
Chama- a de longe o rio desejoso,
Mas ella que parou não sei porquê,
Sequiosa a boca e o coração sequioso.
Nem o ouve nem vê. . .
A SOMBRA DO QUADRANTE 33
Detem-se um pouco e parte. . . De repente,
Ouve um arroio chilreando : taciturna,
Sem se curvar, prosegue, indifferente,
Sempre vasia a urna. . .
Nem viv'alma ! Silencio atroz, profundo.
Parece á triste, vendo-se tão só,
Que morreu toda a gente n'este mundo,
Que só ella ficou. . .
Para a sede da boca, longe ou perto,
Ha sempre agua, nos campos, nas cavernas ;
Até no adusto, no infernal deserto
Ha oásis com cisternas.
Mas para a sede da alma, se algum dia
Sécca a fonte d'amor, que lh'o concede.
Não ha senão, apoz lenta agonia.
Senão morrer de sede. . .
3
34 A SOMBRA DO QUADRANTE
Para a alma que extática se dobra
Ante a fonte escolhida em sitio ameno,
A agua d'outras fontes é salobra,
Quando não tem veneno. . .
o JAZIGO
A ANTÓNIO VIANNA.
« Assim fazia Santa Ida Du-
queza de Saxonia, que mandando
em vida lavrar de mármore o seu
jazigo, todos os dias o enchia de
diversas coisas de comer, e vestir,
e as distribuía pelos pobres. »
P.« Manuel Bernardes, Exerci-
dos Espirituaes.
Diz a Princeza loura, surprehendida
Pelos olhares de seu esposo, agrestes :
— « Que espanto, o vosso I Pois náo me dissestes
« Que era uma doida e dava sem medida ?
« Este jazigo então comprei, rendida
'< Aos severos conselhos que me destes,
«I E n'elle meço o pão, dinheiro e vestes,
« Que aos tristes dou de miserável vida.
36 A SOMBRA DO QUADRANTE
« Alqueire de piedade, e caixa, um dia,
« De cinzas funeraes, tangem violas
« Em torno d'elle seraphins alados . . .
« Vossas ordens cumpri como devia :
« Seja medida agora das esmolas
« O que breve o será de meus peccados. »
OLHANDO AS NUVENS
/ao comparar, Lucinda, o teu novo retrato
Com o outro que me deste ha um mez, indo-te embora,
Em dúvidas cruéis me perco e me debato,
Pois ou um d'elles mente, ou tu és outra agora.
Não és a mesma, não ! O teu sorriso tem
A mesma graça ; a fronte e a boca voluptuosa,
O collo e as finas mãos são como eram. . . porém,
Tens a mais não sei quê, falta-te qualquer cousa.
38 A SOMBRA DO QUADRANTE
O que é que te mudou, o pesar ou a doença ?
Seriam da saudade as frechadas agudas ?
Como foi que n'um mez fizeste assim diíFrença ?
Como serás d'aqui a um anno, se assim mudas ?
Ante os retratos, flor, meu peito mal supporta,
Cheio de confusão a mágua que o trucida :
Aquelle que eu já tinha é um retrato de morta,
E o que hoje recebi, d'uma desconhecida I
Emquanto assim padeço, ao céo os olhos ergo,
Ao céo, lagoa azul onde as velas são asas. . .
Vejo as nuvens correndo... e nas nuvens enxergo,
Inflammado p'lo sol, um castello de brasas.
O castello rutila em faustoso lampejo,
Qual torre de crystal onde dorme um thesoiro ;
De súbito, porém, sem saber como, vejo
O castello mudado em lucifero toiro.
A SOMBRA DO QUADRANTE 3g
Mas no dorso do toiro uma Deusa se deita,
Sob o fardo divino eis que o toiro galopa,
E assim, no céo aonde a lua anciosa espreita,
Parece-me ver Zeus arrebatando Europa !
Deusa e toiro depois transformam-se em navio,
Buscar o Vello d'Oiro os Argonautas vão.. .
Desfaz-se a nau solemne, e em nobre desvario
O amante de Medêa acutila o dragão !
Mas já a noite desce. . . E a nuvem destroçada.
Que foi castello a arder, toiro, mulher divina.
Nau, heroe e dragão. . . eil-a emfim desdoirada.
Triste e sombria como um fumo d'ofFicina. . .
D'este espirito enfermo os debates damnados
Param: a nuvem alta applacou-os, desfez-m'os. . .
— Como a nuvem do céo, morremos aos bocados,
Como a nuvem do céo, nunca somos os mesmos. .
40 A SOMBRA DO QUADRANTE
Viver, agonisar. . . Cada instante é uma cova f
Um beijo é o fallecer gostoso d'um desejo. . .
E se te beijo a boca aromática e nova,
Não sou o mesmo já que te pedira um beijo !
Somos um para o outro, amor, qual fugidia
Sombra d'ave que passa em crystallina veia. . .
Ai de ti 1 ai de mim ! Um olhar é uma agonia,
E a palavra é na boca o estertor d'uma ideia !
Quantas vezes cerrei os olhos, commovido,
A ouvir a tua voz de prata ! e ao despertar,
Par'cia-me, meu bem, que me tinhas fugido,
E que outra se sentara ali, no teu logar !
Nunca encontrei nos lábios teus o mesmo gosto,
Fonte onde vão beber á tarde os meus revezes. .
Mil rostos tenho visto em teu maguado rosto,
E lábios mil beijei, se te beijei mil vezes I
A SOMBRA DO QUADRANTE 41
Sou O mesmo para ti I Veloz, o tempo flue,
E ai quantos homens já em mim agonisaram I
Afinal o que sou ? A campa do que fui !
Mil vezes te beijei ? Mil homens te beijaram !
Ai de mim ! ai de ti, pérola ! Foi traçado
Que os nossos corações, mal noivem, logo enviuvem
E ai I quanta, quanta vez temos enviuvado,
O' nuvem para quem sou também uma nuvem !
O' morta, ó viuva, ó noiva ! ó belleza celeste,
Belleza que só és na inconstância constante !
Afagando-te agora, o remorso me veste,
Pois julgo atraiçoar a que eras ha um instante I
Não mudes mais, por Deus ! Es o monte de neve
Que se transforma quando o sol o descongela :
Teu mavioso olhar é um relâmpago breve,
E eu quizera mudado o relâmpago em estrella !
42 A SOMBRA DO QUADRANTE
Pára I não mudes mais f Só tens de fixo o nome I
Lucinda, ao ver-te assim de hora em hora mudada,
De tal modo enlouqueço e a febre me consome,
Que te quizera ver ahi petrificada !
Invejemos, Lucinda, as estatuas que a Arte
Ergueu, n'um repto audaz aos ventos do porvir !
Fora eu uma estatua, e podesse beijar-te !
Foras tu uma estatua, e podesses sorrir I
Se fossemos de Jaspe ! Eu, Satyro amoroso,
E tu, Nympha gentil, nos meus braços tremendo !
Mas o que peço eu ? Delirio doloroso !
Resignemo'-nos, flor, continuemos morrendo. . .
Quando a Morte aclarar os supremos mysterios,
Das nossas almas vendo o lamentável fundo,
Encontraremos lá dois grandes cemitérios.
Mais vastos que o maior cemitério do mundo ;
A SOMBRA DO QUADRANTE 43
Cemitérios aonde, em grupos esfumados,
Pisando um trilho só de saudades florido,
Os mil phantasmas errarão, desconsolados,
Dos mil amantes que até lá teremos sido !
o ELMO
A CARLOS MALHEIRO DIAS.
O
campo que ahi ves, theatro d'uma guerra
Ha muitos annos foi :
Cada passo dos teus n'esta fecunda terra
Mede a campa d'um heroe !
Olha a seara d'oiro, olha os cachos doirados
Da vinha bella e forte !
Campos férteis não ha como os que são lavrados
P'la charrua da Morte. . .
46 A SOMBRA DO QUADRANTE
Onde o sangue correu e a traição virulenta
Rastejou na poeira,
Arrulham pombas na folhagem da cinzenta,
Pacífica oliveira . . .
'Spelho occulto dos sons, o echo d'estes montes
Redisse ais e estertores ;
Mas hoje só repete o chalrear das fontes
E o clamar dos pastores. . .
Aqui foi que, ha um instante, á sombra densa e grata
D'alto chorão virente,
Entre hervas e calhaus, um elmo achei de prata.
Lavrado finamente ;
Elmo estranho, que o vento ou que um baldão do acaso
De negra terra enchera,
E onde, como em bojudo e caprichoso vaso,
Pallida flor nascera.
A SOMBRA DO QUADRANTE 47
Antigo protector da fronte nobre e ousada
D'algum moço guerreiro,
Sentiu-a latejar, doidamente abrasada
N'um sonho carniceiro :
Protegendo-a, sentiu dentro de si a voz
Da crueldade hirsuta,
ímpetos de extermínio e de vingança atroz,
Estos de fera bruta 1
Mas o heroe baqueou : golpe certo e profundo
Prostrára-o n'um momento !
E o elmo ouviu então do moço moribundo
O ultimo pensamento,
Que alçando-se no ar, como ave luminosa
Foi para longe a voar.
Até cair aos pés d'uma donzella anciosa,
Que se poz a chorar.
48 A SOMBRA DO QUADRANTE
Sonhos de gloria e vós, ódios que nos tornaes
A vida em escuro inferno,
Sois uma cinza vã, sois cinza e nada mais :
Só o amor é eterno !
De quanto palpitou no elmo refulgente
Só não morreu o amor,
Que simples, virginal, balsâmico e innocente,
Revive n'esta flor í
FLORES SECCAS
LJm livro que é um herbario ! Resequida?,
Doce aroma suavíssimo exhalando,
Folhas e flor's estão assignalando
As passagens do texto preferidas.
N'estas paginas, horas esquecidas,
Que de sonhos andámos levantando !
Mas tu morreste, lírio puro e brando,
D'olhos leaes e mãos compadecidas 1
4
5o A SOMBRA DO QUADRANTE
Este feto recorda-me um domingo,
N'estas avencas teus dedinhos vejo,
N'estas algas, do mar ouço a canção.. .
Mas se olho estes jasmins, já não distingo
O que me deste com o primeiro beijo,
D'aquelle que tirei do teu caixão !
SOB OS OLHOS DE DEUS
AOS MEUS AMIGOS
CONDE DE ARNOSO
E CONDE DE SABUGOSA.
rlsposos de irmãs, irmãos pela amisade,
Na honra e brio irmãos, quiz o Senhor
Irmanar-vos ainda n'uma dor
Maior que a da viuvez e a da orfandade.
Um perde a filha em plena mocidade,
Da belleza e da graça em pleno alvor ;
Perde o outro um filho, exemplo de valor,
Maravilha fatal da nossa idade !
52 A SOMBRA DO (QUADRANTE
Tristes pães sem ventura, que, abraçados,
Do cemitério percorreis os trilhos
Todos cheirosos a cypreste e a goivos,
Vossas frontes erguei aos céos doirados.
Onde agora talvez os vossos filhos.
Sob os olhos de Deus, caminhem, noivos !
CREPÚSCULO
AO CONDE DE MONSARAZ.
kJ anjo esbelto que o sol doirava ainda ha um instante
Na grimpa airosa e audaz da caihedral sombria,
Anjo de ferro agora, immovel, dominante,
E' o anjo da Saudade e da Melancholia.
Tristes como quem vae caminho do desterro,
E silenciosas como a própria paciência,
Ajoelhadas aos pés d'aquelle anjo de ferro,
As casas fazem seu exame de consciência. . .
54 A SOMBRA DO QUADRANTE
Ódios, anciãs d'amor, revoltas co'a desdita,
Glorias feitas em pó, sonhos côr das estrellas,
Quanto os seus corações palpitantes agita
Tudo se mostra nos seus olhos, as janellas.
Uma, aberta, vejo eu n'aquelle prediosinho,
Que me enche de amargura e commiseração :
Ali dentro morreu hontem um meu visinho
Que deixou a mulher e três filhos sem pão.
Como eu calculo o quarto I As mesas atulhadas
De remédios ; um Ghristo ; o espelho quedo, absorto
No chão pingos de cera e rosas desfolhadas,
E a um canto, n'um cabide, os casacos do morto.
E pVa além d'esse quarto adivinho uma sala
Onde a viuva abraçada aos orphãos somnolentos
Finge ouvir semi-tonia uma velha que fala.
Em suspirosa voz, nos seus padecimentos.
A SOMBRA DO QUADRANTE 55
Adeante, um rez-do-chão. Vê-se pela vidraça
Uma alcova de pobre, arranjadinha e calma :
Lá dentro uma mulher, toda brandura e graça,
Despe, beijando-a muito, a fílha da sua alma.
A menina boceja, ergue os braços ao ar.
Treme ao ver-se em camisa, e a boa mãe piedosa
Junta-lhe as mãos em prece, ensinando-a a resar,
£ aninha-a nos lençoes. . . Deus a faça ditosa !
N'aquelle esmadrigado e negro pardieiro
Sabeis quem mora ? E' a mulher de Pedro Sem
Eil-a á janella a olhar, a olhar no nevoeiro.
Pobre I que tanto teve, e agora nada tem I
E o que ella roga a Deus que faça a noite espessa,
Que occulte em nuvem densa a prateada lua.
Para que possa, sem que alguém a reconheça,
ir postar-se a pedir á esquina d'uma rua I
56 A SOMBRA DO QUADRANTE
A seguir, um palácio. Ao rectângulo ardente
D'uma sacada surge a fronte esmaecida
D'alva donzella que olha a rua cegamente,
Como um pobre a buscar uma moeda perdida.
Ai da moça gentil que em cruéis agonias,
Erguendo os olhos só para os fixar no céo,
Inutilmente aguarda o noivo que ha três dias
Abalou taciturno e não mais appar'ceu I
Passos andados, eis-me a fitar com tristeza
A silhueta febril d'um homem desgrenhado,
Que em repetidas contorsões de fera presa
Passa e torna a passar n'um estore illuminado.
Bem sei, bem sei quem és, trágico passeante,
Poeta ingénuo como os lirios da manhã ;
Conheço a tua dor : fugiu-te a loira amante,
O' desgraçado suicida d'amanhã !
A SOMBRA DO QUADRANTE 5y
Em lobrega mansarda alguém chora e soluça :
Uma esposa infeliz, em conlorsões de dôr,
Toda se estende lá de cima e se debruça,
EspVando o marido que é — ai d'ella ! um jogador !
E o seu chorar tem echo ! Outro vulto franzino
Chora e soluça ali, n'umas aguas-furiadas :
Afflicta mãe aguarda o filho libertino,
Tremendo de o saber preso ou morto ás facadas.
Mas mais triste que a viuva e que a noiva trahida,
Que o amante abandonado e a receosa mãe,
E' aquella mulher tão nova e envelhecida,
Que olha não sabe o quê, espera não sabe quem.
Bordadora ou rendeira ( os seus dedos de flores
Revelam claramente um mister delicado ),
Movendo a agulha d'oiro ou os bilros faladores,
E' seu triste viver o de um rio parado.
58 A SOMBRA DO QUADRANTE
Moça, mal começou seu peito a arredondar-se
Gomo onda de jasmins e delicadas rosas,
Logo um sonho d'amor pegou a desenhar-se
Na sua alma infantil, em cor's maravilhosas.
A par iam crescendo em belleza e alegria
Seu corpo virginal e o sonho que a enlevava :
— « Será hoje, será ? » cada manhã dizia,
E cada noite p'lo outro dia suspirava. . .
Mas o Amado não vinha, e o tempo ia correndo
Com duros pés sobre seu peito solitário ;
E ella sempre a esperar, sempre a esperar, não tendo
Outros amor's senão um craveiro e um canário.
E o tempo a galopar ! Seus olhos mal enxutos
Buscam doidos, em vão, outros com que sonhou. .
Pobre arvore gentil de aromáticos frutos.
Nascida n'um deserto onde ninguém passou !
A SOMBRA DO QUADRANTE Sq
Ninguém a viu, ninguém a vê ! Desgraça immensa !
Virgem branca, p'la dor que a opprime é uma viuva,
E o seu sonho d'amor ante aquella indiíTrença
Bruxolêa, a morrer, como uma luz á chuva. . .
Noiva, com que ternura honesta e chilreante.
Do marido implorara os cândidos desejos !
Mãe, como ella beijara o loiro filho ! e amante.
Que embriagante mel não teriam seus beijos !
Porém, ninguém a vê ! Em célere carreira,
Tomado o tempo vae de infrene desvario,
E hoje a triste, ao pentear a longa cabelleira.
Entre os cabellos d'oiro uns dois de prata viu !
E' noite. Rompe o luar. Da gente que ali passa
Ninguém a vê, tão doce e pallida, ninguém !
E ella, collada a fronte alvissima á vidraça.
Olha não sabe o quê, espera não sabe quem,
6o A SOMBRA DO QUADRANTE
E no meio do seu angustioso socego,
Pede, juntas as mãos, um sobresalto forte,
Venha elle, que importa ? em tropeções de cego,
Pelo braço do Amor ou pela mão da Morte I
DIAMANTES E PÉROLAS
Sobre uma passagem do Padre Afanuel Bernardes
allusiva á morte de Philippe II de Hespanha
A D. JULIO NOMBELA Y CAMPOS.
v>/ soberbo monarcha, em vasto leito
D'ebano e d'oiro, jaz agonisante ;
Seu filho, que soluça, traz brilhante
Roupa de seda e o Tosão d'Oiro ao peito.
Os cortesãos de conturbado aspeito
Ostentam finas drogas do Levante,
E no annel d'um bispo roçagante
As gemmas fulgem com discreto geito.
62 A SOMBRA DO QUADRANTE
Mas n'isto, o moribundo, abrindo os olhos
Cheios de estranho, de inspirado brilho,
Arreda o lençol branco e transparente,
Mostra o seio coberto de piolhos,
E ao filho diz : — n Vê no que deram^ filho,
« Os diamantes e as pérolas do Oriente ! »
o QUADRANTE
i orque não entras tu no meu jardim um instante ?
Nunca vi tarde assim, de tanta suavidade,
E na minh'alma chora uma sede abrasante
De amar com singelesa e com terna humildade.
Entra. Não tenhas medo. Hesitas ? Fui, é certo,
Assomado, violento e surdo á tua dor.
Quando ás pedras lancei, em fatal desacerto,
A íjmpulla de crystal que enchêramos d'amor.
64 A SOMBRA DO QUADRANTE
Mas se tão duro fui, tu que tão meiga eras,
Por capricho infantil, vestiras-te de gelo,
E amando-me co'a força invencivel das heras,
Simulando desdéns, folgavas em escondel-o.
Cubica a creancinha uma boneca linda :
Dão-lh'a. Que amor lhe tem ! Não ha fruto nem jóia
Que a tentem ! Dura isto um dia, e um dia ainda. . .
Mas ao terceiro, emfim, n'um Ímpeto, destroe-a I
Eu e tu, loira amiga, essa creança fomos,
Destruímos nosso amor, malfadada boneca !
Fugindo d'um pomar onde eram d'oiro os pomos,
Rilhámos, por castigo, urzes d'uma charneca !
A Ventura passou, modesta e com socego,
Junto de nós que não a vimos, sob os freixos,
Cegos, tão cegos como o pobresinho cego.
Que pisasse dobrões, julgando pisar seixos !
A SOMBRA DO QUADRANTE 65
Mas tudo isso se extingue em neblinas distantes,
E o bom tempo adoçou as mais amargas dores :
Perdoemo'-nos, amor, e amigos como d'antes,
Vamos n'este jardim perder-nos entre as flores !
íris, fuchsias, jasmins, o cacto e a clematite
Porfiam em prender os teus olhos românticos,
E açucenas ás mil dizem-nos, Sulamite,
Que entoemos de novo o cântico dos cânticos !
Mas que silencio é o teu ? Não viste a commoção
Que me sacudiu quando ha pouco te encontrei ?
Não acreditarás na minha contricção,
Nem me perdoarás como eu te perdoei ?
Esse silencio é orgulho ! Uma paixão immensa
Ateia-se em tua alma ardente e lastimosa :
Olham-me os olhos teus com fingida indiff rença
Mas tua mão na minha estremece nervosa !
5
66 A SOMBRA DO QUADRANTE
Beija-me ! Assim, assim. . . Que languido alvoroço !
Milagre ! Oiço florir meus tristes desenganos I
Beija-me ! Aos beijos teus, estranho-me, remoço,
Julgo ter outra vez os meus vinte e dois annos !
Choras ? De novo és minha ! . . . Oriental thesoiro
Se oíFrece ao rei sem throno, enfermo e mendicante f
Socéga, meu amor ; limpa os teus olhos d'oiro,
Senta-te aqui um pouco, e olha aquelle quadrante.
Elle te ensinará, meu encanto, a verdade,
Que todo o orgulho é vão, vãs todas as querelas,
Que o amor deve sempre ir p'la mão da caridade,
Que as horas sombras são, e a vida a sombra d'ellas . . ..
Olha o quadrante bem : d'um cinzel inspirado
Finos lavor's expõe na tarja que o circumda,
Emquanto, lenta, sobre, o mármore rosado
Avança a sombra azul d'esta hora moribunda.
A SOMBRA DO QUADRANTE 67
Entre fartos lauréis, entre frutos e flores,
N^essa tarja morrióes e escudos acharás,
O alado caduceo, a tibia dos pastores
Da Arcádia, e d'Eros loiro o florido carcaz.
Aos symbolos, porém, da guerreira loucura,
Da ambição, da poesia e do amor, sobranceira,
Remate singular de tão bella esculptura,
No quadrante verás também uma caveira !
Guardadora feroz das Horas, que, singellas,
Mal nascem morrem logo, em cândidos delirios.
Qual madrasta as vigia, a ver se alguma d'ellas
Se demora a apanhar borboletas ou lirios.
Não sentes um ar de morte a envolver-nos, querida?
A sombra azul prosegue em seu andar furtivo. . .
Tenho sede de amor, tenho fome de vida !
Digam-me os beijos teus que vives e que vivo !
68 A SOMBRA DO QUADRANTE
Passa no meu cabello as tuas mãos radiosas,
Chega bem para mim teu corpo e tuas vestes,
Emquanto além na sombra agonisam as rosas,
E a nossos pés se alonga a sombra dos cyprestes !
CARPE DIEM
1 orque tão tristes e fechados vamos ?
Negro crime fazemos !
E' de rosas o mar onde singramos,
D'oiro fino estes remos. . .
O Amor leva o timão ; a Esp'rança rema,
Risonha e decidida. . .
E em volta cada vaga que se extrema
E' uma sebe florida.
70 A SOMBRA DO QUADRANTE
Ri O sol, canta o céo, cantam as aguas
E canta a viração !
E nós a desfiar contas de maguas
Com dedos d'affliccão. . .
Da Alliança, no azul scintilla o Arco,
E nós, tristes, no meio
D'esta alegria, somos n'este barco
A Saudade e o Receio. . .
Gosemos ! Canta e ri ! O tempo foge,
Meu amor, minha irmã. . .
Mas se é tão lindo e claro o dia d'hoje,
Que importa o d'amanhã ?
Acaso os noivos, diz', tu que me impelles
No futuro a pensar.
Vão de luto casar-se, por que um d'elles
Do outro ha-de enviuvar ?
A SOMBRA DO QUADRANTE 71
Por mais que ahi cogites no futuro,
Muda e sombriamente,
Não lhe abrandas por certo o gesto duro. . .
Saboreia o presente !
Canta e ri, meu amor ! E que eu comtigo
Cante e ria também !
Se és minha amiga e eu sou tão teu amigo.
Que mais queres, meu bem ?
Quando, d'hoje a cem annos ou duzentos.
Branda vida aquecesse
O pó que então serás, brinco dos ventos,
E alguém te proposesse.
Ao dia d'hoje regressar, a troco
De pungente agonia.
Tudo o teu espirito enlevado e louco
De prompto acceitaria !
72 A SOMBRA DO QUADRANTE
Sim ! Para ao dia d'lioje regressares,
Tu que tão triste vaes,
Soífrerias supplicios e pesares,
Sem queixas e sem ais ;
Então darias d'esses lindos olhos
A vida, a claridade,
E andarias descalça em chão d'abrolhos
Por toda a Eternidade !
HORTO FLORIDO
á\ terra, para dar frutos e flores,
Deve ser p'las enxadas revolvida ;
Assim, pVa a alma se mostrar florida
Deve cavada ser por bastas dores.
Por isso, não quiz Deus, ó meus amores.
Que o vosso olhar me illuminasse a vida.
Sem que a minh'alma fosse bem ferida.
Do soffrimenio pelos cavadores. . .
74 A SOMBRA DO QUADRANTE
Chegastes, — meu campinho era lavrado.
Vede que lindo está, e com que viço
Cresce aquella seara de desejos !
Vede aquelle rosal, que é um noivado,
E as abelhas ouvi, que no cortiço
Andam a fabricar o mel dos beijos. . .
os MEUS FILHOS
A MEUS PAES.
VIOLANTE MARIA LUIZA
x\corda cedo como os passarinhos
E vem logo direita á minha cama ;
Sacode-me com geito, por mim chama
E abre-me os olhos com os seus dedinhos.
Estremunhado, zango-me. — « Beijinhos,
« Não quer beijinhos ? » com voz d'oiro exclama
Da minha ira empallidece a chamma,
E acarinhando-a pago os seus carinhos.
76 A SOMBRA DO QUADRANTE
Senhor ! Que amor de filha tu me deste I
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
Dá-lhe a Virtude por amparo e guia ;
E destina também, ó Pae celeste,
Que a mão com que ella agora me abre os olhos
Seja a que ha-de fechar-m'os algum dia !
A SOMBRA DO QUADRANTE 77
n
MARTI M
Nasceu : era um varão ! Com febre anciosa,
A riscar seu futuro eis que me ponho :
Grandezas a grandezas sobreponho,
E minh'alma não pára, ambiciosa !
Génio insigne, consciência luminosa,
Santo, poeta, heroe ! Manso e risonho,
Mal enche o berço. . . mas como eu o sonho
Enche de luz a vida tenebrosa !
78 A SOMBRA DO QUADAANTE
Veiu a morte e levou-m'o ! Altas montanhas,
Como invejei os musgos de velludo
Dos vossos cumes solitários, calmos !
Titulos, honras, glorias e façanhas,
Tudo quanto eu sonhara, coube tudo
N'um caixãosinho branco de dois palmos !
A SOMBRA DO QUADRANTE 79
III
LUIZ
Não peço para mim ! Foram baldadas,
Foram vãs minhas súpplicas, Senhor !
Eu que um throno sonhei, fiquei pastor
De gado triste em serras escalvadas !
Eu que cegara, moço, vendo ateadas
As chammas da ambição, de astral fulgor.
Contemplo agora, em frémitos de dor,
Um montão só de cinzas apagadas !
8o A SOMBRA DO QUADRANTE
Não me queixo, e a teus pés todo me humilho I
Mas se mereço um premio, porque esteja
Tão resignado e dócil como estou.
Compensa o pae humilde, erguendo o filho :
Dá-lhe o que me negaste, e que elle seja
Aquillo que eu quiz ser e que não sou !
A SOMBRA DO QUADRANTE 8l
IV
CONSTANÇA
Dorme. . . Sobre o tapete eis que descança
Dos sapatinhos d'ella o exiguo par :
Lembram as conchas que o bondoso mar,
Para brinco infantil, ás praias lança.
Maior que qualquer d'elles, se balança
Pallida rosa além, filha do luar. . .
Tristes estão ! affeitos só a andar.
Gomo que este repouso agora os cança.
6
82 A SOMBRA DO QUADRANTE
Vendo-os, sonho-a crescida, a linda flor !
E com as mãos humildes levantadas
Supplíco ao Céo, em orações singelas,
Que nos caminhos por onde ella for
Sempre pura e gentil, suas passadas
Fi(juem no chão brilhando como estrellas.
A SOMBRA DO QUADRANTE 83
MAFALDA ERMELINDA
Mais uma estrella me alumia a casa !
Um novo rouxinol canta em meu ninho I
Vede se não é mesmo um passarinho,
Se uma estrella não é de luz que abrasa !
Que lindo o seu dormir, com geito d'asa
Sob a fronte disposto o alvo bracinho !
Mas por vezes, se a vejo, se a acarinho,
D*esta alma uma dor súbita extravasa.
84 A SOMBRA DO QUADRANTE
E' que, se, fiado em Deus, estou contando
Para os meus filhos com uma vida bella,
Feita de dias claros e serenos,
Gomparando-a aos irmãos, fico pensando
Que, sendo ella a mais novinha, é ella
O filho com quem hei-de viver menos. . .
EPILOGO
A MINHA MULHER.
i\ cem portas bati por noite agreste
Em que o vento mugia como um toiro,
Antes de emfim parar á porta d'oiro
A cujo limiar me appareceste.
Nos versos que ahi ficam, se é que os leste,
Talvez pVa a nossa estima aches desdoiro,
Sob o cypreste vendo, ou sob o loiro.
Tantas amadas de perfil celeste.
86 A SOMBRA DO QUADRANTE
Mas não ! Ao pé de ti, sou outro. A vida,
Sôpro de bênçãos, no meu horto flue. . .
E aquelle que divaga nas alfombras
D'esíe livro, lunática avenida.
Não sou eu, é a sombra do que eu fui.
Uma sombra saudosa d'outras sombras I
ÍNDICE
PAG.
Epigraphe i3
Inscripção i5
Passeio nocturno 17
Tristíssima 21
Saudades 23
Hora suprema 25
Rompimento 27
O Ermitão 29
A' volta da fome 3i
O jazigo 35
Olhando as nuvens 37
88 índice
PAG.
O elmo 45
Flores sêccas 49
Sob os olhos de Deus 5i
Crepúsculo 53
Diamantes e pérolas 61
O quadrante 63
Carpe diem 69
Horto florido 73
Os meus filhos :
I. Violante Maria Luiza jS
II. Martim 77
III. Luiz 79
IV. Constança 81
V. Mafalda Ermelinda 83
Epilogo 85
ACABOU DE SE IMPRIMIR
ESTE LIVRO AOS QUINZE
DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO
DE MIL NOVECENTOS E SEIS
NA TYPOGRAPHIA DO EDITOR
FRANÇA AMADO, SITA Á
RUA DE FERREIRA BORGES
NA CIDADE DE COIMBRA.
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Castro, Eugénio de
A sombra do quadrante
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